#HappySustainable: a génese

None
Ter, 01 ago 17

Tudo começou quando eu tinha 19 anos. Tinha conseguido entrar para Direito numa universidade de topo em Lisboa, e tinha-me mudado da minha bolha atlântica nos Açores para as luzes da capital. Depois de um intenso período de lua-de-mel (cheio de sentimentos caloiros de sucesso e uma certeza inabalável de ir mudar o mundo com o conhecimento do sistema "por dentro"), comecei a ver as fendas na parede de um ângulo bem mais próximo. As coisas não eram realmente o que pareciam e o que, para a minha jovem mente, deviam ser. Não aprendi como defender os fracos dos fortes, mas sim que os fortes conseguem justificar o que entenderem enquanto os fracos sucumbem ao seu destino inevitável de vulnerabilidade. Não aprendi a salvar o mundo usando a justiça como alavancagem para melhorar o destino das pessoas e do ambiente, em vez disso percebi que os ricos e poderosos usam a lei como alavancagem para destruição e desrespeito continuado. A lei tinha pouco a ver com Justiça. Tinha a ver com transformar pessoas em maquinas argumentativas, cujo santo graal consistia em provar que tinham razão - aos olhos da lei, e no aos nossos próprios. Sendo uma pessoa argumentativa por natureza, e tendo sempre sabido que esta não era uma das minhas caraterísticas mais adoráveis, esta perspetiva não me deixava particularmente feliz nos meus novos sapatos de futura advogada.

E assim decidi, após um longo período de introspeção (que, aos 19 anos, consiste em algumas tardes a observar o por do sol, tocar djambé na praia e discutir o significado da vida com quem quer que esteja por perto), que iria em busca da FELICIDADE. Sim, queria ser feliz. Tao simples quanto isso. O mundo não me fazia feliz, a injustiça não me fazia feliz, o sofrimento Humano não me fazia feliz, a desflorestação e as alterações climáticas não me faziam feliz.... E rapidamente percebi que a maquina do sistema não ia ser fácil de desmontar, por isso tinha de encontrar outra forma de me fazer feliz.

Tinha lido ou ouvido em algum lado, no contexto de analise transacional, que ter paz era melhor do que ter razão. Como o direito não me tinha oferecido o prazer fugaz de ter razão (pelos meus standards, e não os de um qualquer código de conduta ultrapassada), decidi ir em busca desta alternativa de "estar em paz"... E a introspeção deu lugar a um processo relativamente racional e linear: não posso mudar os outros nem o mundo - devia-me mudar a mim e viver de forma que acredite estar certo - tomar o meu futuro nas minhas próprias mãos - aprender a viver sustentávelmente e ter um impacto positivo no mundo e em mim... logo: vou estudar agricultura sustentável, aprender a ser auto-suficiente em alimento e energia, e assim fazer um bypass a loucura do mundo atual e reduzir ou eliminar a dependência dele da minha parte e da parte dos meus futuros filhos.

 

Claro que isto era algo ingénuo e sonhador, mas não era certamente o devaneio maniento que quase toda a gente assumiu que era. Foi o meu ponto de viragem. O meu momento X. Ou o meu momento F: o micro-segundo de estalar de dedos no qual eu escolhi a felicidade em detrimento do conforto. E lá fui eu, com um bilhete só de ida e um bolso cheio de trocos, para Inglaterra - a terra de todas as esperanças e dos sonhos biológicos. Estudei, trabalhei, desabrochei. Construí uma carreira fundada em agricultura sustentável, depois florestas tropicais e povos indígenas, e depois em políticas de desenvolvimento sustentável como guias mais bem escritos para um mundo melhor. Passei por teoria e prática, atravessando diversos espetros intelectuais, académicos e o próprio globo na minha procura de sentido e de felicidade, que em encontrei em todo o lado e em parte nenhuma. Fui acumulando conhecimento e experiência, constatando com frequência que algo estava a faltar. As quintas biológicas na Europa eram mímicas altamente produtivas dos sistemas convencionais com um selo janota de bem-fazer (mas onde os aspetos sociais, por exemplo, eram frequentemente descuidados), enquanto a agricultura de subsistência nos trópicos ficava sempre aquém do potencial agronómico das colheitas - mas as pessoas pareciam felizes e viviam em comunidades próximas. Estes são claramente exemplos polarizados, que não podem ser vistos sem os contextos alargados de mudanças positivas numa Política Agrícola Comum, ou a crua realidade diária de crianças a morrerem de doenças tratáveis... ou qualquer outra sombra de qualquer outra cor que o mundo nos oferece. 

O cerne da questão é que sempre estive a fazer malabarismo entre estes dois conceitos: felicidade e sustentabilidade. Queria ambos, mas pareciam-me ser de reconciliação difícil. É difícil ser feliz quando se assume total responsabilidade pelas nossas acões, quando deixamos de nos permitir a despreocupação frívola de viver no aqui e no agora, como se não houvesse amanhã. É difícil reconhecer que os nossos comportamentos podem comprometer o "amanhã" dos nossos filhos, que talvez não possam usufruir do planeta fantástico que nos mesmos conhecemos. A subida dos oceanos e terra deserta e queimada não são visões felizes, nem o são as da fuga de pessoas em pânico, com fome ou com sede. Mas estas são as realidades que estamos a mapear para os nossos filhos e os filhos deles com os nossos comportamentos diários. E nenhuma tecnologia de reparo rápido nos poderá aliviar deste fardo de responsabilidade que cada um de nos carrega, independentemente do nível de negação em que escolhemos estar. Negar a realidade e irracional, e não nos dá verdadeira paz interior nem felicidade. A mudança pode ser difícil, mas será apenas quando a adotarmos e que seremos capazes de atingir a tão almejada felicidade: aquele momento de orgulho totalmente justificado em que estas plenamente consciente and sob controle e sabes que fizeste o melhor que podias e sabias - e isso e sempre o suficiente. 

Este e o caminho "no pain, no gain" (sem dor nao ha recompensa) que a maioria de nos tem de comecar a trilhar. 

Por outro lado, para quem é obcecado com comportamentos e estilos de vida sustentáveis, também pode ser difícil encontrar a felicidade. Nunca é suficiente: há sempre mais lixo para recolher, mais luzes para apagar, mais torneiras para fechar, mais pessoas para alimentar, mais saneamento para tratar, mais comida para veganizar, mais justiça por fazer, mais composto para arejar, menos viagens de capricho, menos escolha, menos vida, menos felicidade... há sempre mais mundo para salvar, e o alcançar de justiça inter-geracional pode-se tornar uma miragem num deserto interminável do qual nunca escaparemos com vida. Este caminho priva-nos de nós próprios. Temos um dever moral de ser felizes - senão para que estamos vivos? para nos escravizarmos e nos arrastarmos através da existência apenas para nos decompormos no fim? nahh.... sem entrar no labirinto da fé e crenças pessoais, e para manter as coisas simples, digo eu: as leis da física mostram-nos que tudo se reduz a energia. Energia que pulsa e vibra, que é comum a todos nós e que não se rala com o norte e o sul, passado ou presente, rico ou pobre, preto ou amarelo.... então vamos fazer o melhor que pudermos para manter essa energia positiva, alimentando-a com o nosso bem-estar. A aceitação e o perdão podem ser difíceis, mas são condições indipensáveis à felicidade: devemos aceitar o mundo e as pessoas como são, perdoar os outros como nos perdoamos a nós próprios, e aproveitar a vida sabendo que estamos a fazer o melhor que podemos para vivermos num mundo melhor, sem comprometermos o nosso equilíbrio pessoal. E se isso por vezes tiver de incluir uma passagem no drive-through ou deixar os miúdos jogarem na playstation, então que se façam ambos com um sorriso sem culpas espalhado pela cara. Aproveitemos esse momento de satisfação, sabendo que ele é uma exceção às tuas bem-fundamentadas regras de vida.

Este é o caminho "no pain, no pain" (sem dor não há dor) que alguns de nós precisam de se lembrar de trilhar.

Com tudo isto em mente, eu decidi que o conceito de sustentabilidade deveria adotar um quarto pilar. A adicionar às esferas económica, social e ambiental, eu, Joana, proponho que a felicidade seja o quarto pilar da sustentabilidade. E essa é a razão pela qual escolhemos o hashtag #happysustainable para a Quinta do Bom Despacho: porque veicula o sonho que temos acerca de um estilo de vida equilibrado, e que queremos partilhar com a nossa comunidade, tanto os nossos hóspedes que viajam pelo mundo, como o nosso tecido social local. A nossa visão é sermos uma referência de Turismo sustentável nos Açores e no mundo. A nossa missão é demonstrar como ser sustentável através de gestos e comportamentos do dia-a-dia, quer estejamos em férias ou não. Facilitar a cada um de nós a compreensão de que a sustentabilidade não é uma palavra comprida de esferas políticas longínquas, mas sim uma escolha diária e o resultado de decisões individuais. A sustentabilidade está totalmente ao nosso alcance - tal como está a felicidade. Esperamos que isto sirva de inspiração para vibrarmos positivamente, onde quer que estejamos, e o que quer que estejamos a fazer nas nossas vidas pessoais e profissionais. 

Aprecia a melodia que o Universo toca para todos nós...

...e vive uma vida #felizesustentavel (#happysustainable)!